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<journal-title>Aula (Salamanca)</journal-title>
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<publisher-name>Universidad de Salamanca</publisher-name>
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<subject>Art&#x00ED;culos monogr&#x00E1;fico</subject>
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<article-title>Autoria em m&#x00FA;sica: um estudo com alunos dos anos iniciais do ensino fundamental</article-title>
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<trans-title xml:lang="en">Authorship in Music: A Study with Students in the Early Years of Elementary School</trans-title>
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<contrib-id contrib-id-type="orcid">https://orcid.org/0000-0003-1831-7420</contrib-id>
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<surname>Verardi-Bocca</surname>
<given-names>Hugo de Oliveira</given-names>
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<license-p>Esta obra est&#x00E1; bajo una licencia de Creative Commons Atribuci&#x00F3;n-NoComercial-CompartirIgual 4.0.</license-p>
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<abstract>
<title>Resumo</title>
<p>O objetivo desta pesquisa foi compreender os sentidos dos enunciados musicais produzidos pelos estudantes na atividade de composi&#x00E7;&#x00E3;o musical. Partindo da rela&#x00E7;&#x00E3;o entre m&#x00FA;sica e linguagem e na defesa da m&#x00FA;sica como experi&#x00EA;ncia est&#x00E9;tica, foi desenvolvida uma sequ&#x00EA;ncia did&#x00E1;tica implementada junto aos estudantes do segundo ao quinto ano do ensino fundamental de uma escola brasileira, situada no estado do Paran&#x00E1;. Para compreender os sentidos e como a composi&#x00E7;&#x00E3;o musical foi organizada, influenciada ou determinada, foram utilizados conceitos da teoria bakhtiniana, como: enunciado, g&#x00EA;neros discursivos, estilo, autor. Foi selecionada para an&#x00E1;lise uma letra musical produzida pelos estudantes, permitindo identificar as influ&#x00EA;ncias dos g&#x00EA;neros musicais escolhidos por eles. Tamb&#x00E9;m foram constatadas, por meio da nota&#x00E7;&#x00E3;o musical, as apropria&#x00E7;&#x00F5;es dos conte&#x00FA;dos musicais desenvolvidos durante a sequ&#x00EA;ncia did&#x00E1;tica, como altura das notas, ritmo e din&#x00E2;mica. Conclui-se que, ao se trazer o repert&#x00F3;rio musical dos estudantes, foi propiciada a ressignifica&#x00E7;&#x00E3;o daquilo que j&#x00E1; era significativo para eles, possibilitando assim a experi&#x00EA;ncia est&#x00E9;tica.</p>
</abstract>
<trans-abstract xml:lang="en">
<title>Abstract</title>
<p>The objective of this research was to understand the meanings of musical statements produced by students in the activity of musical composition. Based on the relationship between music and language and in defense of music as an aesthetic experience, a didactic sequence was implemented with students from the second to fifth grade of elementary school in a Brazilian school located in the state of Paran&#x00E1;. To understand the meanings and how the musical composition was organized, influenced, or determined, concepts from Bakhtin&#x2019;s theory were used, such as statement, discursive genres, style, and author. A musical lyric produced by the students was selected for analysis, allowing us to identify the influences of the musical genres initially chosen by them. It was also verified, through musical notation, the appropriations of musical content developed during the didactic sequence, such as the height of musical notes, rhythm, and dynamics. It is concluded that, by bringing the students&#x2019; musical repertoire, it was possible to give new meaning to what was already significant to them, thus enabling the aesthetic experience.</p>
</trans-abstract>
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<title>Palavras-Chave</title>
<kwd>Educa&#x00E7;&#x00E3;o musical</kwd>
<kwd>linguagem</kwd>
<kwd>educa&#x00E7;&#x00E3;o est&#x00E9;tica</kwd>
<kwd>educa&#x00E7;&#x00E3;o b&#x00E1;sica</kwd>
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<title>Keywords</title>
<kwd>Musical education</kwd>
<kwd>language</kwd>
<kwd>aesthetic education</kwd>
<kwd>basic education</kwd>
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<body>
<sec sec-type="sec-1-32237">
<label>1.</label>
<title>Introdu&#x00E7;&#x00E3;o</title>
<p>Foi defendendo a m&#x00FA;sica como experi&#x00EA;ncia est&#x00E9;tica e procurando promover uma forma&#x00E7;&#x00E3;o que potencializasse a imagina&#x00E7;&#x00E3;o e a a&#x00E7;&#x00E3;o criadora que esta pesquisa tomou como ponto de partida uma sequ&#x00EA;ncia did&#x00E1;tica implementada junto a estudantes dos anos iniciais do ensino fundamental.</p>
<p>O processo de musicaliza&#x00E7;&#x00E3;o na educa&#x00E7;&#x00E3;o b&#x00E1;sica ainda se centra, segundo alguns autores, na explora&#x00E7;&#x00E3;o dos elementos musicais (ritmo, melodia, harmonia) isolados, como entidades aut&#x00F4;nomas, ou da materialidade sonora da m&#x00FA;sica (como altura: grave/agudo; intensidade: forte/fraco; dura&#x00E7;&#x00E3;o e timbre).</p>
<p>Buscando romper com essa concep&#x00E7;&#x00E3;o, alguns estudos, como os de <xref ref-type="bibr" rid="ref-11-32237">Ser&#x00F3;dio (2014)</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="ref-5-32237">Maheirie e Barreto (2019)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="ref-9-32237">Schlindwein <italic>et al</italic>. (2019)</xref>, prop&#x00F5;em o processo de cria&#x00E7;&#x00E3;o por parte dos estudantes.</p>
<p><xref ref-type="bibr" rid="ref-11-32237">Ser&#x00F3;dio (2014)</xref> implementou a atividade did&#x00E1;tica de composi&#x00E7;&#x00E3;o musical, relacionando os conceitos bakhtinianos de escuta responsiva, alteridade e an&#x00E1;lise arquitet&#x00F4;nica. Os estudantes se mostraram seres cognitivo-est&#x00E9;tico-&#x00E9;ticos, compositores de m&#x00FA;sicas e de rela&#x00E7;&#x00F5;es humanas, na cultura escolar, tendo como ponto central a escuta e o di&#x00E1;logo.</p>
<p>Pautados em Vigotski, <xref ref-type="bibr" rid="ref-5-32237">Maheirie e Barreto (2019)</xref>, analisaram as produ&#x00E7;&#x00F5;es musicais dos estudantes, destacando a import&#x00E2;ncia da constru&#x00E7;&#x00E3;o de uma rela&#x00E7;&#x00E3;o mais horizontal entre professor e alunos para a ocorr&#x00EA;ncia da cria&#x00E7;&#x00E3;o. Os estudantes apontaram que a divis&#x00E3;o de responsabilidade entre os colegas gerou um sentimento de coopera&#x00E7;&#x00E3;o e pertencimento ao grupo. J&#x00E1; <xref ref-type="bibr" rid="ref-9-32237">Schlindwein <italic>et al</italic>. (2019)</xref> desenvolveram uma experi&#x00EA;ncia propiciadora de rela&#x00E7;&#x00F5;es est&#x00E9;ticas abarcando m&#x00FA;sica, teatro, literatura e brincadeira. As viv&#x00EA;ncias est&#x00E9;ticas se deram em atividades abrangendo som e movimento por meio de brincadeiras com sombras do pr&#x00F3;prio corpo e de desenhos de animais, can&#x00E7;&#x00F5;es e sons da natureza e conta&#x00E7;&#x00E3;o de hist&#x00F3;rias. Como resultados, os autores destacam que a rela&#x00E7;&#x00E3;o entre imagina&#x00E7;&#x00E3;o, fantasia e realidade proporcionou momentos de um processo de cria&#x00E7;&#x00E3;o e imagina&#x00E7;&#x00E3;o nos estudantes.</p>
<p>Na mesma dire&#x00E7;&#x00E3;o das pesquisas citadas, minha vis&#x00E3;o &#x00E9; que tanto o estudo isolado dos elementos musicais quanto o som em si s&#x00E3;o insuficientes para que se atinja a aprendizagem musical na dimens&#x00E3;o est&#x00E9;tica. Assim, para superar o ensino centrado na materialidade sonora, ou nos elementos musicais e nas tecnicidades no processo cognitivo da m&#x00FA;sica, proponho a invers&#x00E3;o destes procedimentos, desenvolvendo um ensino que toma como ponto de partida o resultado est&#x00E9;tico musical, para da&#x00ED; analisar a atitude responsiva de compreens&#x00E3;o por parte dos estudantes.</p>
<p>Para tanto, o apoio te&#x00F3;rico se ampara no pensamento de Bakhtin e o C&#x00ED;rculo e nos pesquisadores bakhtininanos brasileiros, o que me leva a fazer aproxima&#x00E7;&#x00F5;es entre m&#x00FA;sica e linguagem, como condi&#x00E7;&#x00E3;o para que ela se torne um enunciado concreto. Pois, como afirma <xref ref-type="bibr" rid="ref-1-32237">Bakhtin (2011</xref>, p. 271),</p>
<disp-quote>
<p>Toda compreens&#x00E3;o da fala viva, do enunciado vivo &#x00E9; de natureza ativamente responsiva (embora o grau desse ativismo seja bastante diverso); toda compreens&#x00E3;o &#x00E9; prenhe de resposta, e nessa ou naquela forma a gera obrigatoriamente: o ouvinte se torna falante.</p>
</disp-quote>
<p>Portanto, o objetivo geral deste estudo &#x00E9; compreender os sentidos dos enunciados musicais produzidos pelos estudantes na atividade de composi&#x00E7;&#x00E3;o musical. Tal objetivo se desdobra nos seguintes objetivos espec&#x00ED;ficos:</p>
<list list-type="simple">
<list-item><label>a)</label> <p>Identificar gostos e experi&#x00EA;ncias musicais dos estudantes;</p></list-item>
<list-item><label>b)</label> <p>Compreender como essas experi&#x00EA;ncias musicais aparecem no texto po&#x00E9;tico (letra musical) produzido pelos estudantes.</p></list-item>
</list>
<p>Para isso, tomo a concep&#x00E7;&#x00E3;o de m&#x00FA;sica como linguagem e, a partir da composi&#x00E7;&#x00E3;o de uma can&#x00E7;&#x00E3;o pelos estudantes, analiso a letra musical, segundo a perspectiva da an&#x00E1;lise dial&#x00F3;gica do discurso pautada nos conceitos bakhtinianos de enunciado, g&#x00EA;neros discursivos, estilo e autoria. Passemos a eles.</p>
</sec>
<sec sec-type="sec-2-32237">
<label>2.</label>
<title>O percurso te&#x00F3;rico da pesquisa</title>
<sec sec-type="sec-3-32237">
<label>2.1.</label>
<title>M&#x00FA;sica como linguagem</title>
<p>Considerada uma linguagem, a m&#x00FA;sica se torna enunciado; professor e estudantes, interlocutores; e a educa&#x00E7;&#x00E3;o musical se torna um campo de atividade humana. Portanto, uma composi&#x00E7;&#x00E3;o musical, enquanto enunciado concreto, &#x00E9; um texto &#x00FA;nico, produzido por um sujeito inserido em um certo contexto social, hist&#x00F3;rico e cultural, destinado a um determinado p&#x00FA;blico, cuja fun&#x00E7;&#x00E3;o seria a comunica&#x00E7;&#x00E3;o por meio da produ&#x00E7;&#x00E3;o de sentidos.</p>
<p><xref ref-type="bibr" rid="ref-1-32237">Bakhtin (2011)</xref> concebe a l&#x00ED;ngua como atividade social, fundada nas necessidades de comunica&#x00E7;&#x00E3;o, de modo que sua natureza seria essencialmente dial&#x00F3;gica. Ele privilegia a enuncia&#x00E7;&#x00E3;o enquanto realidade da linguagem, sendo que nesta intera&#x00E7;&#x00E3;o social o outro desempenha papel fundamental na constitui&#x00E7;&#x00E3;o do significado.</p>
<p><xref ref-type="bibr" rid="ref-10-32237">Schroeder e Schroeder (2011)</xref> estabelecem rela&#x00E7;&#x00F5;es entre m&#x00FA;sica e linguagem, concordando com a vis&#x00E3;o bakhtiniana de que a l&#x00ED;ngua s&#x00F3; pode ser abarcada em seu uso na forma de enunciados concretos e &#x00FA;nicos e em seu funcionamento, quando proferido nas situa&#x00E7;&#x00F5;es particulares. Como afirma <xref ref-type="bibr" rid="ref-1-32237">Bakhtin (2011</xref>, p. 183):</p>
<disp-quote>
<p>A linguagem s&#x00F3; vive na comunica&#x00E7;&#x00E3;o dial&#x00F3;gica daqueles que a usam. &#x00C9; precisamente essa comunica&#x00E7;&#x00E3;o dial&#x00F3;gica que constitui o verdadeiro campo da vida da linguagem. Toda a vida da linguagem, seja qual for o seu campo de emprego (a linguagem cotidiana, a pr&#x00E1;tica, a cient&#x00ED;fica, a art&#x00ED;stica, etc.), est&#x00E1; impregnada de rela&#x00E7;&#x00F5;es dial&#x00F3;gicas.</p>
</disp-quote>
<p>O excerto acima j&#x00E1; denota uma considera&#x00E7;&#x00E3;o importante para tratar a m&#x00FA;sica como linguagem, que s&#x00E3;o as rela&#x00E7;&#x00F5;es dial&#x00F3;gicas pertinentes a essa &#x00FA;ltima, isto &#x00E9;, rela&#x00E7;&#x00F5;es de sentido entre os enunciados e entre interlocutores. Na teoria bakhtiniana, os enunciados originam os discursos, que s&#x00E3;o efeitos de sentido produzidos ao se levar em conta o contexto social, cultural e hist&#x00F3;rico. Desse modo, todo enunciado &#x00E9; sempre dirigido a algu&#x00E9;m, um interlocutor, e tem suas fronteiras definidas pelo sentido que se completa nesse interlocutor, provocando nele alguma atitude responsiva. Como afirma <xref ref-type="bibr" rid="ref-1-32237">Bakhtin (2011</xref>, p. 354), &#x201C;A compreens&#x00E3;o do todo do enunciado &#x00E9; sempre dial&#x00F3;gica&#x201D;.</p>
<p>A resposta do interlocutor pode se manifestar de diferentes modos, como produzir outros enunciados ou a&#x00E7;&#x00F5;es imediatamente ou posteriormente aos enunciados lidos ou ouvidos ou vistos (<xref ref-type="bibr" rid="ref-10-32237">Schroeder e Schroeder, 2011</xref>). Desse modo, as produ&#x00E7;&#x00F5;es simb&#x00F3;licas no mundo da cultura est&#x00E3;o sempre respondendo umas &#x00E0;s outras. Como afirma <xref ref-type="bibr" rid="ref-7-32237">Nassif (2022)</xref>, as m&#x00FA;sicas n&#x00E3;o s&#x00E3;o criadas isoladamente a partir da inspira&#x00E7;&#x00E3;o de um m&#x00FA;sico e seu conhecimento t&#x00E9;cnico, mas por meio de suas experi&#x00EA;ncias neste universo simb&#x00F3;lico, social e pol&#x00ED;tico do qual ele faz parte.</p>
<p><xref ref-type="bibr" rid="ref-10-32237">Schroeder e Schroeder (2011)</xref> apontam que na m&#x00FA;sica os enunciados musicais s&#x00E3;o as obras, que permitem compreens&#x00E3;o e frui&#x00E7;&#x00E3;o. Eles s&#x00E3;o dirigidos a algu&#x00E9;m, ou seja, pressup&#x00F5;em um interlocutor. A resposta ao enunciado musical nem sempre &#x00E9; imediata ou materialmente vis&#x00ED;vel, podendo ser uma manifesta&#x00E7;&#x00E3;o do tipo elogio ou cr&#x00ED;tica, a simples frui&#x00E7;&#x00E3;o, ou a cria&#x00E7;&#x00E3;o de outra obra em outro momento e em outra linguagem. Desse modo, assim como o artista que produziu a obra musical, o ouvinte tamb&#x00E9;m mobiliza suas refer&#x00EA;ncias estabelecendo di&#x00E1;logo com a m&#x00FA;sica.</p>
<p>Esses autores indicam que as m&#x00FA;sicas sempre se filiam a algum g&#x00EA;nero de discurso art&#x00ED;stico e que a classifica&#x00E7;&#x00E3;o das obras em estilos &#x00E9; a busca de tra&#x00E7;os comuns nas obras de um per&#x00ED;odo, regi&#x00E3;o ou autor. Portanto, fazer m&#x00FA;sica pressup&#x00F5;e o dom&#x00ED;nio de g&#x00EA;neros musicais coletivamente constru&#x00ED;dos, mas tamb&#x00E9;m h&#x00E1; espa&#x00E7;o para a cria&#x00E7;&#x00E3;o, para a individualidade do artista. Com isso, apontam que somos sempre mais criativos nos g&#x00EA;neros do discurso que dominamos.</p>
</sec>
<sec sec-type="sec-4-32237">
<label>2.2.</label>
<title>Enunciado e enuncia&#x00E7;&#x00E3;o</title>
<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="ref-12-32237">Vol&#x00F3;chinov (2019)</xref>, o termo &#x201C;enunciado&#x201D; relaciona-se ao discurso verbal, o qual surge a partir de uma situa&#x00E7;&#x00E3;o pragm&#x00E1;tica extraverbal, mantendo a conex&#x00E3;o mais pr&#x00F3;xima poss&#x00ED;vel a essa situa&#x00E7;&#x00E3;o, a ponto de n&#x00E3;o podermos separ&#x00E1;-lo dela sem perder sua significa&#x00E7;&#x00E3;o.</p>
<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="ref-2-32237">Brait e Melo (2017</xref>, p. 63), o conceito de enunciado &#x00E9; concebido por Bakhtin e o C&#x00ED;rculo como unidade de comunica&#x00E7;&#x00E3;o, ou unidade de significa&#x00E7;&#x00E3;o, necessariamente contextualizado. Os enunciados s&#x00E3;o &#x00FA;nicos dentro de situa&#x00E7;&#x00F5;es espec&#x00ED;ficas, sendo que o car&#x00E1;ter extralingu&#x00ED;stico e o contexto em que foram produzidos devem ser considerados como requisitos imprescind&#x00ED;veis para o seu entendimento.</p>
<p>Quanto &#x00E0; enuncia&#x00E7;&#x00E3;o, <xref ref-type="bibr" rid="ref-2-32237">Brait e Melo (2017)</xref> a descrevem como sendo o fato que constitui a produ&#x00E7;&#x00E3;o de um enunciado, j&#x00E1; que tal realiza&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E9; considerada um acontecimento hist&#x00F3;rico, pois d&#x00E1;-se exist&#x00EA;ncia a algo que n&#x00E3;o existia antes de se falar e que n&#x00E3;o existir&#x00E1; depois. Portanto, a enuncia&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E9; o processo que produz o enunciado, deixando marcas de subjetividade, intersubjetividade e alteridade, caracterizando a linguagem em uso. Nas palavras das autoras:</p>
<disp-quote>
<p>As no&#x00E7;&#x00F5;es enunciado/enuncia&#x00E7;&#x00E3;o t&#x00EA;m papel central na concep&#x00E7;&#x00E3;o de linguagem que rege o pensamento bakhtiniano justamente porque a linguagem &#x00E9; concebida de um ponto de vista hist&#x00F3;rico, cultural e social que inclui, para efeito de compreens&#x00E3;o e an&#x00E1;lise, a comunica&#x00E7;&#x00E3;o efetiva e os sujeitos e discurso nela envolvidos. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-2-32237">Brait e Melo, 2017</xref>, p. 65)</p>
</disp-quote>
<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="ref-12-32237">Vol&#x00F3;chinov (2019)</xref>, as potencialidades da forma art&#x00ED;stica est&#x00E3;o inseridas nas bases do enunciado da fala da vida e das a&#x00E7;&#x00F5;es cotidianas. Como dito acima, o enunciado est&#x00E1; diretamente vinculado ao contexto onde foi produzido, denominado pelo autor de &#x201C;contexto extraverbal&#x201D;. Este, compreende tr&#x00EA;s elementos: &#x201C;1) o horizonte espacial comum dos interlocutores (a unidade do vis&#x00ED;vel); 2) o conhecimento e a compreens&#x00E3;o da situa&#x00E7;&#x00E3;o comum por parte dos interlocutores; 3) a avalia&#x00E7;&#x00E3;o comum dessa situa&#x00E7;&#x00E3;o&#x201D; (p. 119). Tais elementos constituem o que o autor define como a parte presumida do enunciado, ou ent&#x00E3;o o horizonte espacial e sem&#x00E2;ntico compartilhado pelos falantes. Portanto, ao produzirmos um enunciado na vida cotidiana (seja escrito ou oral), o fazemos sempre direcionando a um ouvinte, o qual possui for&#x00E7;a de determina&#x00E7;&#x00E3;o sobre o enunciado.</p>
<p>O entendimento do horizonte espacial do enunciado possibilita saber em qual contexto f&#x00ED;sico o objeto do enunciado e o ouvinte est&#x00E3;o inseridos. Por conta disso, presumimos o conhecimento e a compreens&#x00E3;o deste receptor acerca da situa&#x00E7;&#x00E3;o, bem como sua avalia&#x00E7;&#x00E3;o desta situa&#x00E7;&#x00E3;o. Assim, selecionamos e adaptamos os recursos necess&#x00E1;rios para a elabora&#x00E7;&#x00E3;o do enunciado, adequando tanto o conte&#x00FA;do tem&#x00E1;tico quanto o estilo e a forma, para que ocorra a compreens&#x00E3;o ativa neste ouvinte. Consequentemente, um enunciado concreto compreende duas partes: a parte percebida ou realizada em palavras e a parte presumida.</p>
</sec>
<sec sec-type="sec-5-32237">
<label>2.3.</label>
<title>G&#x00EA;neros do Discurso</title>
<p>Os g&#x00EA;neros discursivos, em Bakhtin, est&#x00E3;o relacionados &#x00E0; linguagem que constitui os diversos campos da atividade humana. <xref ref-type="bibr" rid="ref-1-32237">Bakhtin (2011</xref>, p. 261) afirma que o emprego da l&#x00ED;ngua, nestes campos, ocorre em forma de &#x201C;enunciados concretos, os quais refletem as condi&#x00E7;&#x00F5;es espec&#x00ED;ficas e as finalidades de cada campo&#x201D;. Sendo assim, cada campo de utiliza&#x00E7;&#x00E3;o da l&#x00ED;ngua elabora seus tipos relativamente est&#x00E1;veis de enunciados, os quais denominam-se g&#x00EA;neros do discurso. Ou seja, os tr&#x00EA;s elementos relacionados ao enunciado (o conte&#x00FA;do tem&#x00E1;tico, o estilo e a constru&#x00E7;&#x00E3;o composicional ou forma) s&#x00E3;o determinados de acordo com o campo da comunica&#x00E7;&#x00E3;o em que fora proferido.</p>
<p>Assim, <xref ref-type="bibr" rid="ref-1-32237">Bakhtin (2011)</xref> diferencia os g&#x00EA;neros discursivos em duas categorias, prim&#x00E1;rios (s&#x00E3;o os simples, pertencentes &#x00E0; comunica&#x00E7;&#x00E3;o cotidiana) e secund&#x00E1;rios (s&#x00E3;o os complexos, como os romances, os dramas, cient&#x00ED;fico, publicit&#x00E1;rio etc.). A elabora&#x00E7;&#x00E3;o do g&#x00EA;nero secund&#x00E1;rio ocorre a partir da incorpora&#x00E7;&#x00E3;o e reelabora&#x00E7;&#x00E3;o dos g&#x00EA;neros prim&#x00E1;rios. De acordo com o autor, esses g&#x00EA;neros prim&#x00E1;rios, que integram os complexos, se transformam e adquirem um car&#x00E1;ter especial, perdendo o v&#x00ED;nculo imediato com a realidade concreta e com os enunciados alheios, dessa forma, ambas as esferas se modificam e se complementam.</p>
<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="ref-1-32237">Bakhtin (2011)</xref>, os estudos dos g&#x00EA;neros discursivos devem considerar a natureza do enunciado em sua diversidade, ou seja, deve-se relacion&#x00E1;-los com as diferentes esferas da atividade comunicacional. Na m&#x00FA;sica, podemos compreender os g&#x00EA;neros discursivos atrav&#x00E9;s dos seus elementos relativamente est&#x00E1;veis, os quais nos possibilitam identificar e classificar uma m&#x00FA;sica, por exemplo, como erudita, popular, contempor&#x00E2;nea, etc. Ou mais ainda, constatar se esta composi&#x00E7;&#x00E3;o se trata (no caso da m&#x00FA;sica popular) de um samba, um rock, sertanejo, etc. Ou ent&#x00E3;o, no caso da m&#x00FA;sica erudita, se ela pertence ao per&#x00ED;odo barroco, cl&#x00E1;ssico ou rom&#x00E2;ntico, por exemplo.</p>
</sec>
<sec sec-type="sec-6-32237">
<label>2.4.</label>
<title>Estilo</title>
<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="ref-12-32237">Vol&#x00F3;chinov (2019)</xref>, o &#x201C;estilo&#x201D; envolve pelo menos duas pessoas ou, mais precisamente, uma pessoa e o seu grupo social na forma do seu representante autorizado, o ouvinte. Segundo o autor, o estilo e a forma s&#x00E3;o determinados pelas interrela&#x00E7;&#x00F5;es dos participantes de um evento art&#x00ED;stico.</p>
<p>Em uma obra, o autor, o her&#x00F3;i (objeto do enunciado) e o ouvinte devem ser compreendidos como entidades, que s&#x00E3;o os fatores constitutivos essenciais, que determinam a forma e o estilo. Explicando cada uma dessas entidades, temos que o ouvinte deve ser entendido como o ouvinte que o pr&#x00F3;prio autor leva em conta, aquele a quem a obra &#x00E9; orientada e que consequentemente determina a estrutura da obra, diferentemente das pessoas reais que de fato formam o p&#x00FA;blico do autor.</p>
<p>Todos os elementos do estilo de uma obra po&#x00E9;tica est&#x00E3;o impregnados da atitude avaliativa do autor em rela&#x00E7;&#x00E3;o ao conte&#x00FA;do, expressando sua posi&#x00E7;&#x00E3;o social, estabelecendo o valor hier&#x00E1;rquico do her&#x00F3;i. N&#x00E3;o se trata das avalia&#x00E7;&#x00F5;es ideol&#x00F3;gicas que est&#x00E3;o incorporadas ao conte&#x00FA;do, mas da avalia&#x00E7;&#x00E3;o via forma que encontra express&#x00E3;o na pr&#x00F3;pria maneira pela qual o material art&#x00ED;stico &#x00E9; visto e disposto.</p>
<p>O estilo &#x00E9; indissoci&#x00E1;vel dos g&#x00EA;neros discursivos e, consequentemente, do campo da atividade em que &#x00E9; proferido. Este, por sua vez, determina tipos de enunciados estil&#x00ED;sticos, tem&#x00E1;ticos e composicionais de acordo com suas especificidades e fun&#x00E7;&#x00F5;es. Atrav&#x00E9;s do estilo, podemos apontar o que h&#x00E1; de marca autoral em um determinado enunciado.</p>
</sec>
<sec sec-type="sec-7-32237">
<label>2.5.</label>
<title>Autoria</title>
<p><xref ref-type="bibr" rid="ref-1-32237">Bakhtin (2011</xref>, p. 382) considera &#x201C;autor&#x201D; todo sujeito que produz um discurso em determinada circunst&#x00E2;ncia em uma esfera p&#x00FA;blica da vida cotidiana ou liter&#x00E1;ria, pois, para ele, &#x201C;Todo enunciado, at&#x00E9; uma sauda&#x00E7;&#x00E3;o padronizada, possui uma determinada forma de autor (e de destinat&#x00E1;rio)&#x201D;. Ent&#x00E3;o, a princ&#x00ED;pio, seria autor todo sujeito que fala conforme a posi&#x00E7;&#x00E3;o ocupada em rela&#x00E7;&#x00E3;o ao seu interlocutor.</p>
<p>No entanto, para a compreens&#x00E3;o do conceito de autoria, na perspectiva bakhtiniana, como nos alerta <xref ref-type="bibr" rid="ref-3-32237">Faraco (2017)</xref>, &#x00E9; necess&#x00E1;rio distinguir o autor-pessoa (o escritor, o artista ou, no caso desta pesquisa, o estudante) do autor-criador, compreendido enquanto fun&#x00E7;&#x00E3;o est&#x00E9;tico-formal criadora da obra, sendo tamb&#x00E9;m um elemento constituinte do objeto est&#x00E9;tico, j&#x00E1; que &#x00E9; ele quem lhe d&#x00E1; a forma. Nas palavras de <xref ref-type="bibr" rid="ref-3-32237">Faraco (2017</xref>, p. 38):</p>
<disp-quote>
<p>Se podemos dizer que a distin&#x00E7;&#x00E3;o de autor-pessoa/autor-criador &#x00E9; hoje um lugar-comum nas teoriza&#x00E7;&#x00F5;es est&#x00E9;ticas, ainda assim as considera&#x00E7;&#x00F5;es bakhtinianas trazem ao conceito de autor-criador uma subst&#x00E2;ncia peculiar ao caracteriz&#x00E1;-lo fundamentalmente como uma posi&#x00E7;&#x00E3;o axiol&#x00F3;gica.</p>
</disp-quote>
<p>Desse modo, o autor-criador materializa uma certa rela&#x00E7;&#x00E3;o axiol&#x00F3;gica com o her&#x00F3;i (tamb&#x00E9;m traduzido como a personagem) e seu mundo. Tal rela&#x00E7;&#x00E3;o pode ter um olhar diferenciado, de simpatia, de cr&#x00ED;tica, de deboche, de alegria, de crueldade, etc.</p>
<p>Portanto, &#x00E9; esse posicionamento valorativo que d&#x00E1; ao autor-criador as condi&#x00E7;&#x00F5;es para constituir o todo, oferecendo um acabamento est&#x00E9;tico ao her&#x00F3;i/personagem. Em outras palavras, no objeto est&#x00E9;tico se materializam escolhas composicionais e de linguagem, resultantes de um posicionamento axiol&#x00F3;gico do autor-criador. Vale salientar que nesta pesquisa o objeto est&#x00E9;tico ser&#x00E1; a letra musical produzida pelos estudantes.</p>
<p>Sendo assim, a distin&#x00E7;&#x00E3;o entre autor-pessoa e autor-criador se faz necess&#x00E1;ria tamb&#x00E9;m para a compreens&#x00E3;o do conceito de autoria e autor na m&#x00FA;sica. Uma composi&#x00E7;&#x00E3;o musical &#x00E9; um produto refratado de uma posi&#x00E7;&#x00E3;o axiol&#x00F3;gica do autor-pessoa. Assim, como o escritor n&#x00E3;o seleciona as palavras de um dicion&#x00E1;rio, mas sim da vida, o compositor n&#x00E3;o escolhe os sons ou as estruturas sonoras de uma escala musical crom&#x00E1;tica, mas das suas viv&#x00EA;ncias musicais, de sua mem&#x00F3;ria, ou melhor, de suas ressignifica&#x00E7;&#x00F5;es constru&#x00ED;das por meio do seu repert&#x00F3;rio musical, adquirido ao longo da vida enquanto autor-pessoa.</p>
</sec>
</sec>
<sec sec-type="sec-8-32237">
<label>3.</label>
<title>O percurso metodol&#x00F3;gico do estudo</title>
<p>A pesquisa ocorreu em uma escola de educa&#x00E7;&#x00E3;o b&#x00E1;sica da rede particular de ensino situada na regi&#x00E3;o metropolitana de Curitiba, Paran&#x00E1;, Brasil. As aulas de m&#x00FA;sica foram ministradas pelo autor da pesquisa, a 64 estudantes do ensino fundamental I (segundo ao quinto ano), por meio de uma sequ&#x00EA;ncia did&#x00E1;tica que aconteceu ao longo de 1 ano letivo, com 1 aula semanal para cada turma de alunos.</p>
<p>Etapas da sequ&#x00EA;ncia did&#x00E1;tica utilizada nesse estudo:</p>
<p>1: Identifica&#x00E7;&#x00E3;o &#x2013; as experi&#x00EA;ncias musicais: identificar as experi&#x00EA;ncias musicais vivenciadas pelos estudantes, bem como seus gostos e os modos de acesso &#x00E0;s suas m&#x00FA;sicas preferidas. Esta etapa se deu por meio da aplica&#x00E7;&#x00E3;o de um question&#x00E1;rio elaborado pelo pr&#x00F3;prio professor, autor deste artigo, em que se perguntava se eles gostavam de m&#x00FA;sica, por que, qual era a fun&#x00E7;&#x00E3;o da m&#x00FA;sica para eles, se tocavam algum instrumento, quanto tempo ouviam de m&#x00FA;sica na semana, o que eles ouviam (ritmo, banda, cantor), onde costumavam ouvir m&#x00FA;sica (carro, em casa, no celular, no aparelho de som). Tempo estimado: 2 aulas.</p>
<p>2: Aprecia&#x00E7;&#x00E3;o Est&#x00E9;tica &#x2013; escuta respondente: atividade de aprecia&#x00E7;&#x00E3;o de m&#x00FA;sicas e v&#x00ED;deos dos g&#x00EA;neros musicais preferidos dos estudantes, que foram: <italic>funk</italic>, <italic>pop</italic>, <italic>rock</italic>, sertanejo e samba. O objetivo era motivar e fornecer elementos para disparar posteriormente os debates que instigavam os estudantes a exporem suas ideias quanto aos instrumentos utilizados nas m&#x00FA;sicas, ao conte&#x00FA;do das letras, &#x00E0; fun&#x00E7;&#x00E3;o da m&#x00FA;sica e ao contexto s&#x00F3;cio-hist&#x00F3;rico cultural em que a m&#x00FA;sica se encontrava. Tempo estimado: 15 aulas.</p>
<p>3: Composi&#x00E7;&#x00E3;o - Escrita de letra musical: voltada para a produ&#x00E7;&#x00E3;o textual, ou seja, &#x00E0; escrita de letras musicais (textos po&#x00E9;ticos). Como suporte te&#x00F3;rico-metodol&#x00F3;gico, foi utilizada a atividade denominada &#x201C;O Bin&#x00F4;mio Fant&#x00E1;stico&#x201D;, proposto por <xref ref-type="bibr" rid="ref-8-32237">Rodari (1982)</xref>. Esta consiste na escolha de duas palavras estranhas uma &#x00E0; outra, escolhidas ao acaso. Para tanto o professor utilizou o dicion&#x00E1;rio, abrindo-o aleatoriamente, e selecionou a primeira palavra da p&#x00E1;gina. Foram disponibilizados 8 bin&#x00F4;mios, dentre os quais os estudantes poderiam escolher um deles para compor suas letras musicais. Ap&#x00F3;s a sele&#x00E7;&#x00E3;o das palavras, os grupos tiveram a liberdade de escolher um dos g&#x00EA;neros musicais trabalhados na etapa anterior, para da&#x00ED; desenvolver suas letras musicais. Foram elaboradas 21 letras no total. Tempo estimado: 12 aulas.</p>
<p>4: Nota&#x00E7;&#x00E3;o Musical &#x2013; Partitura n&#x00E3;o convencional: ap&#x00F3;s o desenvolvimento das letras musicais, foram selecionadas algumas produ&#x00E7;&#x00F5;es, pelos estudantes e professor, levando em considera&#x00E7;&#x00E3;o elementos presentes nas letras que contribu&#x00ED;ssem e viabilizassem o desenvolvimento de uma can&#x00E7;&#x00E3;o, como rimas, m&#x00E9;trica (ritmo) e tem&#x00E1;tica. A prepara&#x00E7;&#x00E3;o para a montagem da partitura foi baseada nas atividades de representa&#x00E7;&#x00E3;o gr&#x00E1;fica do som propostas por <xref ref-type="bibr" rid="ref-6-32237">Moura <italic>et al.</italic> (1996)</xref>. Nesta, escolhem-se alguns sons para os estudantes criarem uma representa&#x00E7;&#x00E3;o gr&#x00E1;fica, por exemplo: gotas caindo, sino de igreja, abelha, &#x00E1;gua de torneira, etc. Ap&#x00F3;s, ocorreram atividades de representa&#x00E7;&#x00E3;o dos movimentos sonoros ascendentes e descendentes, em que se adota uma representa&#x00E7;&#x00E3;o gr&#x00E1;fica espec&#x00ED;fica, ou seja, com linhas sinuosas que sobem ou descem, partindo da esquerda para a direita, denominada o c<italic>aminho do som</italic>. Para a execu&#x00E7;&#x00E3;o do som, utilizamos a flauta doce, pois j&#x00E1; existia um dom&#x00ED;nio t&#x00E9;cnico deste instrumento por parte dos alunos. Tempo estimado: 10 aulas.</p>
<p>Segue abaixo (<xref ref-type="fig" rid="fig-1-32237">Ilustra&#x00E7;&#x00E3;o 1</xref>) a partitura desenvolvida pelos estudantes para a m&#x00FA;sica selecionada.</p>
<fig id="fig-1-32237">
<label>Ilustra&#x00E7;&#x00E3;o 1.</label>
<caption><title>Partitura n&#x00E3;o convencional de &#x201C;A brisa do mar&#x201D;</title></caption>
<graphic xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xlink:href="fig-1-32237.jpg"/>
<attrib>Fonte: Arquivo do autor (2019).</attrib>
</fig>
<p>5 &#x2013; Registro &#x2013; Grava&#x00E7;&#x00E3;o Sonora: teve por objetivo relacionar a representa&#x00E7;&#x00E3;o gr&#x00E1;fica com a melodia elaborada coletivamente. Nele, um dos estudantes se prontificou a cant&#x00E1;-la. Tempo estimado: 5 aulas.</p>
<p>Segue link da grava&#x00E7;&#x00E3;o: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://soundcloud.com/hugo-de-oliveira-894987451/a-brisa-do-mar">https://soundcloud.com/hugo-de-oliveira-894987451/a-brisa-do-mar</ext-link></p>
</sec>
<sec sec-type="sec-9-32237">
<label>4.</label>
<title>An&#x00E1;lise musical em perspectiva dial&#x00F3;gica</title>
<p>Para a an&#x00E1;lise, foi selecionada a letra musical do g&#x00EA;nero <italic>pop</italic>, lembrando que esse texto po&#x00E9;tico foi o &#x00FA;nico que os pr&#x00F3;prios estudantes escolheram para sua musicaliza&#x00E7;&#x00E3;o. Tal escolha deveu-se aos seguintes aspectos valorizados por eles: disposi&#x00E7;&#x00E3;o visual da letra organizada em versos e estrofes, assim como sua quantidade, resultando em uma letra mais extensa; as rimas presentes em todas as finais das estrofes; o conte&#x00FA;do tem&#x00E1;tico da letra. Segue abaixo a letra da m&#x00FA;sica selecionada.</p>
<verse-group>
<title>T&#x00ED;tulo da m&#x00FA;sica: A brisa do mar (G&#x00EA;nero musical: <italic>pop</italic>)</title>
<verse-line>O mar me despertou</verse-line>
<verse-line>Com as ondas a balan&#x00E7;ar</verse-line>
<verse-line>E com isso eu acordei</verse-line>
<verse-line>Pensando em dan&#x00E7;ar</verse-line>
<verse-line>Dan&#x00E7;ar me faz sorrir</verse-line>
<verse-line>Sorrir me faz cantar</verse-line>
<verse-line>Cantar me faz amar</verse-line>
</verse-group>
<verse-group>
<verse-line>De noite eu quero festejar</verse-line>
<verse-line>Depois coloquei meu porta-voz</verse-line>
<verse-line>Para me despertar</verse-line>
<verse-line>Depois eu acordei com o sol a iluminar</verse-line>
<verse-line>E me faz amar</verse-line>
<verse-line>Esse dia t&#x00E3;o belo</verse-line>
<verse-line>Com a brisa do mar</verse-line>
</verse-group>
<p>Para compreender o discurso manifestado nos debates ao longo das aulas acerca dos g&#x00EA;neros musicais, trago os conceitos de &#x201C;Autor e Autoria&#x201D;. Eles auxiliam a entender esse discurso realizado na posi&#x00E7;&#x00E3;o de autores-pessoas, sendo que tal discurso recebeu um acabamento est&#x00E9;tico e se materializou na obra acima (letra musical), produzida na posi&#x00E7;&#x00E3;o de autores-criadores.</p>
<p>Iniciando pelo discurso acerca do g&#x00EA;nero <italic>pop</italic> (que &#x00E9; o da letra selecionada para an&#x00E1;lise), destaco que, nas palavras deles, trata-se: de um &#x201C;tipo&#x201D; de m&#x00FA;sica atual, com elementos tecnol&#x00F3;gicos avan&#x00E7;ados, como as &#x201C;batidas eletr&#x00F4;nicas&#x201D; e instrumentos el&#x00E9;tricos, como a guitarra, caixas de som e microfone. De origem estrangeira, m&#x00FA;sica e dan&#x00E7;a est&#x00E3;o em constante associa&#x00E7;&#x00E3;o, estando presente em esferas como as festas e &#x201C;baladas&#x201D;. Consideram um g&#x00EA;nero musical que transmite mensagens positivas como liberdade, divers&#x00E3;o e felicidade. Os elementos musicais, o ritmo ou &#x201C;as batidas&#x201D;, foram mencionados como componente motivador na composi&#x00E7;&#x00E3;o de uma m&#x00FA;sica <italic>pop</italic>.</p>
<p>Em rela&#x00E7;&#x00E3;o ao texto po&#x00E9;tico intitulado <italic>A brisa do mar</italic>, constata-se a refra&#x00E7;&#x00E3;o dos sentidos mencionados na posi&#x00E7;&#x00E3;o de autores-pessoas. Os autores-criadores oferecem um acabamento est&#x00E9;tico para estes sentidos, que s&#x00E3;o materializados em forma de letra musical. O conte&#x00FA;do tem&#x00E1;tico da letra se trata de mensagens, tamb&#x00E9;m, positivas. Come&#x00E7;ando pelo t&#x00ED;tulo <italic>A brisa do mar</italic>, a palavra brisa representa um vento fraco e fresco, o qual remete a algo agrad&#x00E1;vel e prazeroso. J&#x00E1; o mar revela o local onde o enredo se desenrolou: uma cidade litor&#x00E2;nea, uma praia. Por se tratar de crian&#x00E7;as que residem e vivem em uma cidade localizada h&#x00E1; pelo menos 100 km do litoral, o local escolhido, a praia, nos remete e direciona para alguns sentidos. Talvez aqui a praia represente o sentido de liberdade, de festas, de f&#x00E9;rias, de aus&#x00EA;ncia de compromissos. Diferentemente, se fossem crian&#x00E7;as que vivessem em uma cidade litor&#x00E2;nea, provavelmente tais sentidos n&#x00E3;o seriam manifestados.</p>
<p>As palavras &#x201C;dan&#x00E7;a&#x201D; e &#x201C;festa&#x201D; mencionadas durante o debate em aula, na posi&#x00E7;&#x00E3;o de autores-pessoa, se fizeram presentes na obra, assim como o sentido de &#x201C;felicidade&#x201D;, que se materializou atrav&#x00E9;s do uso das palavras &#x201C;sorrir&#x201D; e &#x201C;amar&#x201D;, como podemos observar nos seguintes versos: &#x201C;E com isso eu acordei / Pensando em dan&#x00E7;ar / Dan&#x00E7;ar me faz sorrir / Sorrir me faz cantar / Cantar me faz amar / De noite eu quero festejar&#x201D;.</p>
<p>As rimas, mesmo que classificadas gramaticalmente como &#x201C;rimas pobres&#x201D;<xref ref-type="fn" rid="fn-1-32237"><sup>1</sup></xref> foram usadas a fim de dar musicalidade ao texto, sendo utilizadas como ferramentas de acabamento est&#x00E9;tico, oferecendo o aspecto de uma letra musical ao enunciado. Observa-se que todas as rimas possuem a termina&#x00E7;&#x00E3;o das palavras com a s&#x00ED;laba &#x201C;ar&#x201D;: balan&#x00E7;ar, dan&#x00E7;ar, cantar, amar, festejar, despertar, iluminar, mar.</p>
<p>Para analisar o texto como &#x201C;Enunciado&#x201D;, precisamos levar em considera&#x00E7;&#x00E3;o os tr&#x00EA;s participantes do discurso, o falante, o ouvinte e o her&#x00F3;i. Assim, &#x00E9; importante pensar nos interlocutores e seus horizontes espaciais, no conhecimento e a compreens&#x00E3;o da situa&#x00E7;&#x00E3;o e avalia&#x00E7;&#x00F5;es envolvidas, conforme apontado acima seguindo <xref ref-type="bibr" rid="ref-12-32237">Vol&#x00F3;chinov (2019)</xref>.</p>
<p>Como interlocutores, temos os estudantes e o professor, alternando as posi&#x00E7;&#x00F5;es de falante e ouvinte, e o texto po&#x00E9;tico (letra musical) admitindo a posi&#x00E7;&#x00E3;o do terceiro participante do discurso, o her&#x00F3;i. Quanto ao horizonte espacial comum dos interlocutores (o meio f&#x00ED;sico) em quest&#x00E3;o, os participantes desse discurso estavam inseridos em uma sala de aula de uma escola particular, equipada com carteiras e cadeiras, distribu&#x00ED;das de forma agrupada, quadro branco, TV, um viol&#x00E3;o, flautas doces e caixa de som. Tratava-se, assim, de um ambiente formal de ensino.</p>
<p>O conhecimento e a compreens&#x00E3;o comum da situa&#x00E7;&#x00E3;o se deu de forma partilhada entre os interlocutores, pois os estudantes tinham consci&#x00EA;ncia de que estavam participando de uma pesquisa, desenvolvida por meio das atividades direcionadas por seu professor de m&#x00FA;sica. Sabiam desde o in&#x00ED;cio das atividades que teriam que criar letras musicais de acordo com as palavras disponibilizadas pelo professor. Neste caso, as palavras foram: &#x201C;Despertar&#x201D; e &#x201C;Portavoz&#x201D;, atividade denominada &#x201C;Bin&#x00F4;mio Fant&#x00E1;stico&#x201D;. Deveriam, portanto, relacion&#x00E1;-las e criar textos po&#x00E9;ticos influenciados pelos sentidos expressos pelos g&#x00EA;neros musicais escolhidos por eles (<italic>funk</italic>, <italic>pop</italic>, <italic>rock</italic>, sertanejo ou samba).</p>
<p>Dessa forma, as crian&#x00E7;as tinham consci&#x00EA;ncia de que estavam produzindo enunciados escritos e, mais do que isso, sabiam que seu professor de m&#x00FA;sica os leria, e os avaliaria (mesmo n&#x00E3;o atribuindo notas) a partir do seu conhecimento e experi&#x00EA;ncia musical.</p>
<p>Quanto ao conhecimento e compreens&#x00E3;o por parte do professor, este sabia que os enunciados seriam produzidos por crian&#x00E7;as de sete a dez anos de idade, portanto deveria relevar as limita&#x00E7;&#x00F5;es t&#x00E9;cnicas e priorizar o car&#x00E1;ter expressivo, que &#x00E9; o foco deste estudo. Por fim, quanto &#x00E0; avalia&#x00E7;&#x00E3;o comum dessa situa&#x00E7;&#x00E3;o, os interlocutores compartilham da mesma expectativa, dos mesmos sentidos, ou ainda, um ju&#x00ED;zo de valor comum a respeito do ato de compor uma letra musical. Em outras palavras, existe uma ideia, de ambas as partes, dos elementos que podem caracterizar e constituir uma letra de m&#x00FA;sica, tais como as rimas, a forma, estrofes e refr&#x00E3;o, o conte&#x00FA;do relacionando-se com o g&#x00EA;nero musical, etc.</p>
<p>Como falante e ouvinte partilham da mesma situa&#x00E7;&#x00E3;o, ambos levam em conta este ju&#x00ED;zo de valor um do outro. Assim, ao produzirem seus textos po&#x00E9;ticos, os estudantes se deixaram influenciar pelo que eles imaginavam ser o ju&#x00ED;zo de valor de um professor de m&#x00FA;sica no que diz respeito ao ato de compor uma letra musical. S&#x00E3;o os julgamentos de valor que determinam a sele&#x00E7;&#x00E3;o das palavras por parte do falante, mas tamb&#x00E9;m determinam a recep&#x00E7;&#x00E3;o desta sele&#x00E7;&#x00E3;o pelo ouvinte.</p>
<p>Portanto, a letra musical, compreendida neste estudo enquanto produ&#x00E7;&#x00E3;o est&#x00E9;tica, foi constru&#x00ED;da a partir de alguns elementos disparadores como as palavras que constitu&#x00ED;ram o &#x201C;bin&#x00F4;mio fant&#x00E1;stico&#x201D; (neste caso, &#x201C;despertar/porta-voz&#x201D;) e os sentidos que as crian&#x00E7;as dispunham a respeito dos g&#x00EA;neros musicais (neste caso, o g&#x00EA;nero musical <italic>pop</italic>). Em outras palavras, a letra musical foi produzida a partir das intera&#x00E7;&#x00F5;es entre as rela&#x00E7;&#x00F5;es valorativas que os interlocutores disp&#x00F5;em a respeito do her&#x00F3;i, neste caso, as palavras pertencentes ao bin&#x00F4;mio fant&#x00E1;stico &#x201C;despertar/porta-voz&#x201D; somadas &#x00E0;s posi&#x00E7;&#x00F5;es valorativas a respeito dos g&#x00EA;neros musicais.</p>
<p>Nota-se que a palavra &#x201C;despertar&#x201D; est&#x00E1; presente em duas situa&#x00E7;&#x00F5;es no texto po&#x00E9;tico. Na primeira estrofe (O mar me despertou / Com as ondas a balan&#x00E7;ar / E com isso eu acordei / Pensando em dan&#x00E7;ar) e, tamb&#x00E9;m, na segunda estrofe (De noite eu quero festejar / Depois coloquei meu porta-voz para me despertar). Em ambos os casos, a palavra &#x201C;despertar&#x201D; foi utilizada na primeira pessoa, assumindo a conota&#x00E7;&#x00E3;o de acordar. Ela emana sentidos positivos, mas uma coisa &#x00E9; acordar de f&#x00E9;rias em uma praia com o som das ondas do mar, outra seria acordar cedo para ir &#x00E0; escola.</p>
<p>Quanto &#x00E0; palavra &#x201C;porta-voz&#x201D;, percebe-se que ela foi utilizada para conotar um despertador, por&#x00E9;m n&#x00E3;o se pode afirmar que houve um equ&#x00ED;voco em rela&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E0; sua conota&#x00E7;&#x00E3;o. Se buscarmos o seu significado em um dicion&#x00E1;rio, teremos &#x201C;um indiv&#x00ED;duo que fala publicamente por outro&#x201D;. Assim, aqui neste contexto seria um objeto que &#x201C;desperta por outro&#x201D;, assumindo responsabilidade no lugar do outro.</p>
<p>O conceito &#x201C;Estilo&#x201D; nos possibilita identificar e analisar o acabamento est&#x00E9;tico realizado pelos estudantes em suas produ&#x00E7;&#x00F5;es de letras musicais. Ele auxilia a revela&#x00E7;&#x00E3;o das rela&#x00E7;&#x00F5;es valorativas entre alunos e her&#x00F3;i (letra musical), professor e her&#x00F3;i (letra musical) e, finalmente, estudante e professor (interlocutores); al&#x00E9;m de suas vis&#x00F5;es de mundo e tra&#x00E7;os de individualidade expressos via forma textual.</p>
<p>Em rela&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E0; disposi&#x00E7;&#x00E3;o da forma visual em que foi organizada, pode-se constatar que possui duas partes, pois h&#x00E1; um espa&#x00E7;o entre uma e outra, o que possibilita a remiss&#x00E3;o em forma de estrofes, elementos que constituem as letras musicais de forma geral. A quantidade de versos presentes em cada estrofe, da m&#x00FA;sica <italic>A brisa do mar</italic>, &#x00E9; muito parecida: a primeira possui sete versos e a segunda estrofe disp&#x00F5;e de oito versos.</p>
<p>Segundo a pros&#x00F3;dia<xref ref-type="fn" rid="fn-2-32237"><sup>2</sup></xref>, podemos separar a letra musical em silabas po&#x00E9;ticas, de acordo com a sonoridade, e identificar as rimas presentes, como segue abaixo:</p>
<verse-group>
<verse-line>Letra S&#x00ED;labas Po&#x00E9;ticas Rimas</verse-line>
<verse-line>O- mar- me- des- per- tou 6 A</verse-line>
<verse-line>Com- as- on-das a-ba-lan-&#x00E7;ar 7 B</verse-line>
<verse-line>E- com- is- so eu- a- cor- dei 7 C</verse-line>
<verse-line>Pen- san- do em- dan- &#x00E7;ar 5 B</verse-line>
</verse-group>
<verse-group>
<verse-line>Dan- &#x00E7;ar- me- faz- sor- rir 6 D</verse-line>
<verse-line>Sor- rir- me- faz- can- tar 6 B</verse-line>
<verse-line>Can- tar- me- faz- a- mar 6 B</verse-line>
<verse-line>De- noi- te eu- que- ro- fes- te- jar 8 B</verse-line>
<verse-line>De- pois- co- lo- quei- meu- por- ta- voz 9 E</verse-line>
<verse-line>Pa- ra- me- des- per- tar 6 B</verse-line>
<verse-line>De- pois- eu- a- cor- dei 6 C</verse-line>
<verse-line>Com- o- sol- a i- lu- mi- nar 7 B</verse-line>
</verse-group>
<verse-group>
<verse-line>E- me- faz- a- mar! 5 B</verse-line>
<verse-line>Es- se- di a- t&#x00E3;o- be- lo 6 F</verse-line>
<verse-line>Com- a- bri- sa- do- mar 6 B</verse-line>
</verse-group>
<p>Podemos observar que ocorreu preocupa&#x00E7;&#x00E3;o em buscar uma m&#x00E9;trica, que, diferentemente das duas estrofes em que a letra se dividia inicialmente, foi constitu&#x00ED;da por quatro estrofes, compostas de quatro versos cada, com exce&#x00E7;&#x00E3;o da &#x00FA;ltima estrofe, que possui apenas tr&#x00EA;s versos (talvez pela inexperi&#x00EA;ncia das crian&#x00E7;as em criar letras musicais).</p>
<p>Os versos apresentam, em sua maioria, seis s&#x00ED;labas, por&#x00E9;m alguns est&#x00E3;o pr&#x00F3;ximos a seis, um pouco acima ou um pouco abaixo, o que permite afirmar que houve a tentativa de cria&#x00E7;&#x00E3;o de frases com tamanhos equivalentes.</p>
<p>Quanto &#x00E0;s rimas, como dito anteriormente, todas elas formadas com a s&#x00ED;laba &#x201C;ar&#x201D;, podendo ser classificadas gramaticalmente como rimas &#x201C;pobres&#x201D;, devido &#x00E0;s palavras selecionadas pertencerem &#x00E0; mesma classe gramatical, ou seja, todas s&#x00E3;o verbos; com exce&#x00E7;&#x00E3;o da rima presente na &#x00FA;ltima estrofe, &#x201C;mar&#x201D;, um substantivo. Nota-se que apareceram na primeira e na terceira estrofes o mesmo padr&#x00E3;o de rimas: A B C B &#x2013; o primeiro e terceiro versos s&#x00E3;o livres, j&#x00E1; o segundo e o quarto apresentam rima. Nas demais estrofes n&#x00E3;o ocorreu um padr&#x00E3;o de repeti&#x00E7;&#x00E3;o. Por&#x00E9;m, deve-se levar em conta que as rimas est&#x00E3;o presentes em todos os &#x00FA;ltimos versos das quatro estrofes; o que pode ter o sentido de conclus&#x00E3;o, de fechamento, de repouso.</p>
<p>Analisando essa letra musical pela perspectiva dos &#x201C;g&#x00EA;neros discursivos&#x201D; de Bakhtin, ressaltamos seus elementos <italic>relativamente est&#x00E1;veis</italic>, apesar de consider&#x00E1;-la um enunciado concreto e &#x00FA;nico. Ou seja, os tr&#x00EA;s elementos ligados ao todo do enunciado &#x2013; o conte&#x00FA;do tem&#x00E1;tico, o estilo e a constru&#x00E7;&#x00E3;o composicional &#x2013; foram determinados de acordo com o campo da comunica&#x00E7;&#x00E3;o em que foram proferidos.</p>
<p>Assim, deve-se inicialmente identificar o campo da comunica&#x00E7;&#x00E3;o em que foi produzida, que, neste caso, &#x00E9; a letra musical de um tipo espec&#x00ED;fico de m&#x00FA;sica, o <italic>pop</italic>. Ao assumir esta considera&#x00E7;&#x00E3;o, a m&#x00FA;sica <italic>pop</italic> enquanto campo da comunica&#x00E7;&#x00E3;o, o conte&#x00FA;do tem&#x00E1;tico, o estilo e a constru&#x00E7;&#x00E3;o composicional do texto po&#x00E9;tico <italic>A brisa do mar</italic>, estariam relativamente pr&#x00E9;-determinados.</p>
<p>Vejamos o primeiro elemento constitutivo do enunciado, o conte&#x00FA;do tem&#x00E1;tico. Ao se produzir uma letra musical pertencente &#x00E0; m&#x00FA;sica <italic>pop</italic>, espera-se encontrar mensagens positivas, tais como foram identificadas na produ&#x00E7;&#x00E3;o das crian&#x00E7;as como divers&#x00E3;o, felicidade, festas, dan&#x00E7;a e liberdade. Diferentemente, se a letra produzida fosse um <italic>rap</italic>, se esperaria encontrar mensagens de protesto, den&#x00FA;ncia e viol&#x00EA;ncia, por exemplo.</p>
<p>Quanto ao estilo, elemento do enunciado que pode ser associado &#x00E0; identidade do locutor ou ao seu grupo social, &#x00E9; o que h&#x00E1; de subjetividade em um enunciado, mesmo que esta subjetividade esteja impregnada das inter-rela&#x00E7;&#x00F5;es dos participantes de um evento art&#x00ED;stico (autor, her&#x00F3;i e ouvinte). Em outras palavras, seria a maneira ou a forma que o autor (neste caso, os estudantes) materializou as mensagens positivas presentes na m&#x00FA;sica <italic>pop</italic>. No caso, o enredo do texto po&#x00E9;tico acontece em uma praia, com as ondas do mar que despertam sensa&#x00E7;&#x00F5;es e desejos positivos, como dan&#x00E7;ar, cantar, amar e festejar. Nesse sentido, a op&#x00E7;&#x00E3;o pelo g&#x00EA;nero <italic>pop</italic> e o conte&#x00FA;do da letra podem ser relacionados ao grupo social em que os estudantes est&#x00E3;o inseridos.</p>
<p>Finalmente, sobre a constru&#x00E7;&#x00E3;o composicional, pode-se relacionar &#x00E0; organiza&#x00E7;&#x00E3;o lingu&#x00ED;stica do enunciado. Ressalto aqui a forma dos versos, escritos em estrofes, al&#x00E9;m da utiliza&#x00E7;&#x00E3;o das rimas, caracterizando o g&#x00EA;nero can&#x00E7;&#x00E3;o. &#x00C9; n&#x00ED;tida a preocupa&#x00E7;&#x00E3;o com a pros&#x00F3;dia e a busca por uma m&#x00E9;trica, apesar de suas limita&#x00E7;&#x00F5;es e algumas &#x201C;falhas&#x201D;. Algo compreens&#x00ED;vel tendo em vista que foram produzidas por crian&#x00E7;as.</p>
<p>Assim, ao pensarmos a m&#x00FA;sica can&#x00E7;&#x00E3;o (composi&#x00E7;&#x00E3;o musical utilizando-se um texto escrito), enquanto g&#x00EA;nero musical, ou melhor, g&#x00EA;nero discursivo secund&#x00E1;rio, e a m&#x00FA;sica <italic>pop</italic> como uma subdivis&#x00E3;o ou complexifica&#x00E7;&#x00E3;o dele, constatamos o quanto o enunciado po&#x00E9;tico <italic>A brisa do mar</italic> est&#x00E1; impregnado de elementos relativamente est&#x00E1;veis deste campo da comunica&#x00E7;&#x00E3;o.</p>
<p>Analisando a partitura n&#x00E3;o convencional criada pelos estudantes (apresentada no t&#x00F3;pico anterior), pode-se afirmar que houve a preocupa&#x00E7;&#x00E3;o de representar a altura das notas, assim como o ritmo e a din&#x00E2;mica. A melodia foi representada em forma de gr&#x00E1;ficos, linhas que ascendem (notas que saltam do grave para o agudo) e descendem (notas que saltam do agudo para o grave), as quais possuem algumas marca&#x00E7;&#x00F5;es no ponto de encontro entre duas linhas, ora pequenos c&#x00ED;rculos pintados, ora apenas o contorno dos pequenos c&#x00ED;rculos, ora pequenas retas perpendiculares; possibilitando relacion&#x00E1;-las &#x00E0; quantidade de silabas e notas presentes em cada frase musical. J&#x00E1; o fato das marca&#x00E7;&#x00F5;es (pequenos c&#x00ED;rculos pintados, n&#x00E3;o pintados e pequenas retas perpendiculares) serem distintas, podem indicar tr&#x00EA;s diferentes partes da m&#x00FA;sica.</p>
<p>Observamos tamb&#x00E9;m que n&#x00E3;o h&#x00E1; uma continuidade das linhas, elas s&#x00E3;o segmentadas, o que permite afirmar que cada segmento estaria representando um verso da letra. Nota-se que em todos os segmentos do gr&#x00E1;fico est&#x00E1; marcado com uma cor diferente, quase sempre no final do segmento. Talvez estas marca&#x00E7;&#x00F5;es tenham a pretens&#x00E3;o de indicar a acentua&#x00E7;&#x00E3;o m&#x00E9;trica, ou seja, sinalizar o tempo forte da frase, indicando, assim, a din&#x00E2;mica ao ser executada.</p>
</sec>
<sec sec-type="sec-10-32237">
<label>5.</label>
<title>Considera&#x00E7;&#x00F5;es finais</title>
<p>Priorizei neste estudo a educa&#x00E7;&#x00E3;o est&#x00E9;tico-musical, de tal modo que um primeiro princ&#x00ED;pio para isso foi a compreens&#x00E3;o da m&#x00FA;sica enquanto linguagem. Nesse entendimento, ela se torna um enunciado concreto proferido por um locutor, que sofre influ&#x00EA;ncias de seu interlocutor, gerando nele alguma resposta, ou atitude responsiva. Isto o leva ao campo das significa&#x00E7;&#x00F5;es e ressignifica&#x00E7;&#x00F5;es, de forma que a educa&#x00E7;&#x00E3;o musical se torna uma experi&#x00EA;ncia est&#x00E9;tica.</p>
<p>Tais significa&#x00E7;&#x00F5;es e ressignifica&#x00E7;&#x00F5;es t&#x00EA;m como elemento central a inser&#x00E7;&#x00E3;o, na sequ&#x00EA;ncia did&#x00E1;tica, de m&#x00FA;sicas apreciadas pelos pr&#x00F3;prios estudantes. O fato de j&#x00E1; estarem familiarizados com a linguagem presente em cada uma das can&#x00E7;&#x00F5;es aumenta as possibilidades de promover a experi&#x00EA;ncia est&#x00E9;tica; uma vez que possibilita o reconhecimento dos elementos composicionais de cada g&#x00EA;nero musical.</p>
<p>Sendo assim, o estudo desenvolvido aqui dialoga com as pesquisas citadas na introdu&#x00E7;&#x00E3;o, mesmo quando elas tomam outros fundamentos te&#x00F3;ricos de diferentes autores. Relacionado ao estudo de <xref ref-type="bibr" rid="ref-5-32237">Maheirie e Barreto (2019)</xref>, que enfatizam a coopera&#x00E7;&#x00E3;o dos estudantes ao desenvolverem a atividade de cria&#x00E7;&#x00E3;o, em meu estudo, observei que esta coletividade pode ser compreendida na perspectiva bakhtiniana atrav&#x00E9;s da rela&#x00E7;&#x00E3;o com o outro, que se d&#x00E1; por meio da alteridade. J&#x00E1; <xref ref-type="bibr" rid="ref-9-32237">Schlindwein <italic>et al</italic>. (2019)</xref> enfatizam a imagina&#x00E7;&#x00E3;o como mote para o ato criador; aqui neste estudo, o ato criador deve ser compreendido como um acabamento que o autor criador d&#x00E1; aos elementos vivenciados por ele em sua vida cotidiana. Concordo com <xref ref-type="bibr" rid="ref-11-32237">Ser&#x00F3;dio (2014)</xref> quando defende que ao se valorizar e promover a autoria dos estudantes, ou seja, ao dar voz a eles, proporciona-lhes um posicionamento cognitivo-est&#x00E9;tico-&#x00E9;tico; o que pode contribuir para uma maior autonomia em rela&#x00E7;&#x00E3;o a vida escolar e, mais tarde, em suas vidas como cidad&#x00E3;os. Portanto, &#x00E9; poss&#x00ED;vel verificar que existem converg&#x00EA;ncias entre os resultados dos estudos citados e o desenvolvido aqui, mas por meio de fundamentos e conceitos distintos.</p>
<p>Destaco que as limita&#x00E7;&#x00F5;es f&#x00ED;sicas de uma sala de aula, al&#x00E9;m da falta de equipamentos espec&#x00ED;ficos ou instrumentos musicais, n&#x00E3;o podem ser barreiras para que n&#x00E3;o ocorram as experi&#x00EA;ncias musicais ativas. &#x00C9; evidente que uma estrutura&#x00E7;&#x00E3;o f&#x00ED;sica adequada aumenta as possibilidades de expandir as atividades, mas isso n&#x00E3;o deve ser um pr&#x00E9;-requisito para a educa&#x00E7;&#x00E3;o musical.</p>
<p>A meu ver, esse estudo aponta caminhos para a possibilidade de integra&#x00E7;&#x00E3;o e ressignifica&#x00E7;&#x00E3;o do processo educativo, relacionado &#x00E0; educa&#x00E7;&#x00E3;o est&#x00E9;tico-musical, o que permite uma forma&#x00E7;&#x00E3;o mais abrangente do estudante, mas tamb&#x00E9;m refrata no professor.</p>
<p>Em rela&#x00E7;&#x00E3;o ao professor, ressalto a import&#x00E2;ncia da apropria&#x00E7;&#x00E3;o de um referencial te&#x00F3;rico, para uma ressignifica&#x00E7;&#x00E3;o de sua pr&#x00E1;tica pedag&#x00F3;gica, principalmente na rela&#x00E7;&#x00E3;o professor-estudante, desencadeando a&#x00E7;&#x00F5;es como: valoriza&#x00E7;&#x00E3;o da posi&#x00E7;&#x00E3;o-estudante no di&#x00E1;logo em sala de aula; destaque &#x00E0; bagagem e experi&#x00EA;ncia musical dos estudantes como parte do conte&#x00FA;do das aulas; assun&#x00E7;&#x00E3;o do estudante na posi&#x00E7;&#x00E3;o de autor, de criador e protagonista da aula.</p>
<p>Assim, o referencial te&#x00F3;rico deste estudo, al&#x00E9;m de ser um suporte metodol&#x00F3;gico e epistemol&#x00F3;gico para a pesquisa, me ofereceu uma vis&#x00E3;o filos&#x00F3;fica a respeito da linguagem, da m&#x00FA;sica, da educa&#x00E7;&#x00E3;o musical. S&#x00E3;o contribui&#x00E7;&#x00F5;es que acontecem quando o professor se torna pesquisador. Talvez esse seja o caminho.</p>
</sec>
</body>
<back>
<fn-group>
<fn id="fn-1-32237" fn-type="other"><label>1</label> <p>De acordo com o crit&#x00E9;rio gramatical, a rima pobre ocorre entre palavras que pertencem &#x00E0; mesma categoria gramatical &#x2013; por exemplo, dois substantivos, dois adjetivos, dois verbos &#x2013;, e a rima rica se d&#x00E1; entre termos pertencentes a diferentes categorias gramaticais (<xref ref-type="bibr" rid="ref-4-32237">Jatahy e Kayama, 2016</xref>, p. 273).</p></fn>
<fn id="fn-2-32237" fn-type="other"><label>2</label> <p>Parte da gram&#x00E1;tica tradicional que se dedica &#x00E0;s caracter&#x00ED;sticas da emiss&#x00E3;o dos sons da fala, como o acento e a entoa&#x00E7;&#x00E3;o; est&#x00E1; relacionada com os estudos de metrifica&#x00E7;&#x00E3;o; adapta&#x00E7;&#x00E3;o da m&#x00E9;trica de um texto &#x00E0; da m&#x00FA;sica <italic>(Dicion&#x00E1;rio Oxford)</italic>.</p></fn>
</fn-group>
<ref-list>
<label>6.</label>
<title>Refer&#x00EA;ncias</title>
<ref id="ref-1-32237"><mixed-citation publication-type="book"><person-group person-group-type="author"><string-name><surname>Bakhtin</surname>, <given-names>M.</given-names></string-name></person-group> (<year>2011</year>). <chapter-title>Os g&#x00EA;neros do discurso</chapter-title>. <comment>Em</comment> <source><italic>Est&#x00E9;tica da cria&#x00E7;&#x00E3;o verbal</italic></source> (<comment>pp.</comment> <fpage>261</fpage>-<lpage>306</lpage>). <role>Trad.</role> <person-group person-group-type="translator"><string-name><given-names>Paulo</given-names> <surname>Bezerra</surname></string-name></person-group>. <publisher-name>Martins Fontes</publisher-name>.</mixed-citation></ref>
<ref id="ref-2-32237"><mixed-citation publication-type="book"><person-group person-group-type="author"><string-name><surname>Brait</surname>, <given-names>B.</given-names></string-name>, &#x0026; <string-name><surname>Melo</surname>, <given-names>R. de</given-names></string-name></person-group>. (<year>2017</year>). <chapter-title>Enunciado/enunciado concreto/enuncia&#x00E7;&#x00E3;o</chapter-title>. <comment>Em</comment> <person-group person-group-type="author"><string-name><given-names>B.</given-names> <surname>Brait</surname></string-name></person-group>, <source><italic>Bakhtin: conceitos-chave</italic></source> (<comment>pp.</comment> <fpage>61</fpage>-<lpage>78</lpage>). <edition>5.&#x00AA; ed.</edition> <publisher-name>Contexto</publisher-name>.</mixed-citation></ref>
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